Um país fraturado: Nossas elites
preferem rifar a democracia e o Estado de Direito a diminuir as desigualdades
"... A noite anoiteceu tudo o
mundo não tem remédio os suicidas tinham razão." ....
Havemos de amanhecer! O mundo se tinge
com as tintas de antemanhã e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora."
(C.D.A. 1939)
Na
noite de quarta para quinta-feira desta semana, o Senado da República deu mais
um passo para a consolidação do golpe parlamentar que pretende afastar
definitivamente Dilma Rousseff do cargo de Presidente da República. Trata-se do
coroamento de um longo processo que se inicia com o questionamento ao resultado
das eleições de 2014, feito pelos candidatos derrotados, e teve continuidade
nas manobras legislativas que impediram a Presidente de governar; na instalação
e condução do processo de impedimento conduzido pelo presidente da Câmara dos
Deputados, hoje afastado por corrupção; no espetáculo vergonhoso de votação do
processo na Câmara; na recusa do Supremo Tribunal Federal em assumir sua função
de defensor da Constituição e, finalmente, na cumplicidade de um Presidente do
Senado também ameaçado de afastamento por corrupção.
Não
bastasse tudo isso e o fato de contra a Presidente afastada não figurar
qualquer acusação de corrupção ou de não se ter demonstrado que tenha cometido
crime de responsabilidade, única condição prevista na Constituição para o
impedimento de um Presidente da República, tudo isso foi realizado com o apoio
de amplas parcelas da população, do Parlamento e, notadamente, do grande
empresariado e da maioria esmagadora dos meios de comunicação.
Frente
a isso, houve uma reação organizada dos movimentos sociais, de ativistas,
políticos e intelectuais que sempre estiveram na defesa da democracia e do
Estado de Direito. E não apenas isso. A reação ao golpe reuniu, sobretudo,
aqueles que lutam por um país mais justo e menos desigual. Na verdade, essa é a
senha fundamental para entendermos tudo que acontece hoje no país. O que se
pretende encobrir com a fumaça do combate à corrupção é a recusa despudorada de
nossas elites a qualquer tentativa de diminuir a vergonhosa desigualdade que
marca a sociedade brasileira.
Todo
o processo de impedimento conduzido pelo Parlamento, com o expressivo apoio das
camadas médias, do grande empresariado e dos meios de comunicação, representa
um desnudamento da sanha predatória e autoritária de nossas elites em relação
às nossas riquezas e ao conjunto da população.
O
país não está, hoje, mais dividido do que sempre esteve. O que há de diferente,
hoje, é o desnudamento da aversão de nossas elites a aceitarem as mínimas
conquistas sociais e a sua capacidade de tudo sacrificar em defesa de seus mais
sórdidos interesses. É também diferente a recusa dos militares, apesar de
ostensivamente convocados, a assumir algum protagonismo no golpe, impôs a
necessidade de que os arautos do autoritarismo e do Estado de Exceção dessem as
caras. E essas caras nos são bem conhecidas deste há muito!
Junto
com o Governo Temer, que muito temos a temer, assume o que há de pior da
política brasileira. Seu projeto de governo, a tal Ponte para o Futuro, aponta,
na verdade, para o mais obscuro passado. As reformas pretendidas e anunciadas,
se exitosas, significarão um ataque frontal ao pouco, muito pouco, que
conquistamos nas últimas décadas. Dos direitos sociais e políticos às políticas
de reconhecimento, tudo está em questão para Temer e seus apoiadores. É
preciso, para eles, liberar a sociedade do Estado e, se possível, daqueles
setores que lutam a favor de mais direitos, das garantias sociais e militam
pela maior igualdade.
Se
sob a fumaça do combate à corrupção vicejam a manutenção das desigualdades, a
desfaçatez política, o autoritarismo, o pouco apreço pela ordem democrática, o
ataque aos direitos e às diferenças será preciso, mais uma vez, reunir energias
e mobilizar o melhor de nossas tradições para defender árduas conquistas. Essa
é a nossa responsabilidade e o tempo é agora!
FONTE:
Editorial Pensar a Educação Pensar o Brasil

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